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O posicionamento especulativo está a deslocar-se rapidamente a favor do dólar americano. Segundo o último relatório da CFTC, as posições agregadas vendidas em dólar diminuíram US$ 7,5 bilhões ao longo da semana, com quase todo o reposicionamento saindo do euro e do iene — as duas moedas mais vulneráveis à alta dos preços do petróleo e do gás, já que as principais rotas de abastecimento energético da UE e do Japão estão ligadas ao Golfo Pérsico.
Se o Japão tem pouca escolha, a Europa é um caso clássico de tolice política e autossabotagem energética. O continente abriu mão voluntariamente de fornecimentos confiáveis de energia barata e, ao mesmo tempo, enfraqueceu sua própria geração nuclear, criando uma vulnerabilidade evidente.
Se a guerra no Golfo se prolongar, as perspectivas para o euro são muito fracas — e os especuladores já estão precificando isso ao reduzir rapidamente suas posições compradas (long) em euro.
Por enquanto, o mercado prefere acreditar que o conflito será curto e que os fluxos de petróleo e GNL (gás natural liquefeito) provenientes do Golfo serão retomados. Isso é evidenciado pelo aumento moderado do preço do petróleo, apesar das fortes restrições na oferta.
Quanto ao cenário econômico dos Estados Unidos, o pessimismo já está prevalecendo. O PIB do quarto trimestre foi revisado para baixo, de 1,4% para 0,7%, piorando um quadro já negativo indicado por relatórios muito fracos do mercado de trabalho nos últimos meses.
A dinâmica da inflação permanece mista: o núcleo do PCE subiu 0,4% em janeiro e 3,1% em termos anuais, 0,1 ponto percentual acima de dezembro. Os pedidos de bens duráveis ficaram estagnados em janeiro, um sinal claro de demanda fraca dos consumidores, enquanto o rendimento dos TIPS de 5 anos está próximo de uma máxima de três anos, o que indica que as empresas veem risco de nova aceleração da inflação.
A desaceleração da demanda do consumidor aumentará o déficit orçamentário, a dívida pública e o déficit em conta corrente. No longo prazo, isso representa problemas importantes para o dólar americano, e acreditamos que, em última instância, ele deverá enfraquecer. A força atual é apenas uma reação de mercado de curto prazo. Um déficit em conta corrente crescente aumenta a dependência da economia dos EUA em relação ao capital estrangeiro e, se os mercados acionários, por exemplo, começarem a cair a partir de máximas históricas, os fluxos de entrada de capital diminuiriam, ampliando ainda mais o déficit.
Uma provável desaceleração do crescimento do PIB quase certamente produziria esse cenário e, combinada com a expectativa de inflação mais elevada, colocaria tanto o governo dos EUA quanto o Federal Reserve em uma situação ainda mais difícil. Já agora, os futuros dos Fed funds precificam apenas um corte de juros neste ano — e somente em dezembro —, o que indica que os mercados estão a descontar uma ameaça inflacionária muito elevada. Isso, por sua vez, aponta para a perspectiva de estagflação — o pior desfecho possível para qualquer banco central ou governo.
Presumimos que o dólar americano permanecerá forte no curto prazo, até que haja evidências claras de que a Guerra do Golfo poderá terminar. No entanto, no longo prazo, um número crescente de indicadores aponta para um eventual enfraquecimento da moeda.