Índia entra em um mercado mais amplo e estável
Segundo análise da ING Economics, o acordo de livre-comércio entre a Índia e a União Europeia pode marcar um ponto de inflexão na estratégia comercial de Nova Délhi. A iniciativa concederia à Índia acesso praticamente pleno a um dos maiores mercados do mundo, em um momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimentos.
A ING estima que o acordo garantirá à Índia acesso preferencial a 97% das linhas tarifárias da UE, abrangendo cerca de 99,5% do comércio bilateral, com uma parcela significativa dessas tarifas sendo eliminada imediatamente.
A escala e a profundidade do pacto levaram alguns analistas a classificá-lo como “a mãe de todos os acordos”, destacando seu potencial de fortalecer a competitividade das exportações indianas. O entendimento surge num contexto em que economias asiáticas intensificam esforços para diversificar seus destinos comerciais além dos Estados Unidos — movimento que já impulsionou o comércio regional ao longo do último ano.
Atualmente, a UE é o segundo maior destino das exportações indianas, respondendo por cerca de 17% do total, atrás apenas dos EUA, com 21%. Desde o início da pandemia, a participação europeia cresceu aproximadamente três pontos percentuais. A composição das exportações indianas para a UE e para os EUA é amplamente semelhante, embora os produtos petrolíferos tenham peso maior nas vendas para a Europa.
A ING observa que, enquanto as tarifas americanas permanecem elevadas, o acordo permitirá que a Índia redirecione exportações para a UE sem mudanças estruturais relevantes em sua pauta comercial. Mais de 60% das exportações indianas para o bloco concentram-se em poucas categorias, como produtos petrolíferos, farmacêuticos, eletrônicos, minerais, autopeças e têxteis.
A eliminação tarifária sobre uma ampla gama de bens deve beneficiar especialmente setores intensivos em mão de obra, como frutos do mar, couro e calçados, vestuário, artesanato, pedras preciosas e joias, plásticos e brinquedos. Esses segmentos — que representam cerca de 2% do PIB indiano em termos de exportações — foram desproporcionalmente afetados pelas restrições comerciais impostas pelos EUA.
Segundo a ING, é justamente nesses setores que a Índia compete diretamente com China, Bangladesh e Vietnã. A redução das barreiras por parte da UE pode estimular a geração de empregos em áreas estratégicas para o mercado de trabalho indiano.
O acordo, contudo, preserva restrições em áreas politicamente sensíveis. A Índia optou por proteger seus setores agrícola e de laticínios, aceitando reduções tarifárias mais limitadas em categorias como alimentos, bebidas e automóveis. Na avaliação da ING, esse equilíbrio amplia o acesso externo sem comprometer interesses domésticos.
O pacto também tende a influenciar os fluxos de investimento estrangeiro direto. A UE responde por cerca de 15% do IED na Índia, com destaque para Países Baixos, Alemanha, Bélgica e França. Historicamente, os investimentos europeus concentraram-se no setor de serviços — especialmente em TI e software —, mas uma integração mais profunda pode reativar aportes em segmentos como automotivo, químico e construção.
O setor de serviços, aliás, ocupa posição central no acordo. A Índia já exporta para a UE serviços equivalentes a cerca de 1% do PIB, mantendo um superávit aproximado de 0,2%. O entendimento inclui compromissos mais amplos em 144 subsetores, que vão de tecnologia da informação e serviços profissionais a educação e serviços empresariais, criando um ambiente regulatório mais previsível para prestadores indianos.
Para a ING, o acordo representa um marco relevante na estratégia de diversificação comercial da Índia e um passo importante na transformação do cenário exportador asiático.