O paradoxo do petrodólar: o dólar e os preços do petróleo sobem em sincronia em meio à turbulência nos mercados
A tradicional correlação inversa entre o dólar norte-americano e os preços globais do petróleo atingiu um nível histórico. O conflito de 11 semanas no Oriente Médio e o bloqueio de rotas marítimas estratégicas romperam a relação negativa que normalmente existia entre esses ativos.
Analistas da Bloomberg observaram que o Bloomberg Dollar Spot Index e os futuros do Brent estão agora a mover-se praticamente em perfeita sintonia — algo sem precedentes desde o lançamento do indicador, em 2005. Historicamente, um dólar forte tende a pressionar os preços do petróleo, já que uma moeda valorizada reduz a procura por commodities. No entanto, a escalada militar no Irã desencadeou uma subida quase vertical simultânea dos dois ativos.
O Brent já avançou 45% desde o final de fevereiro — período marcado pelos primeiros ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, que acabaram por comprometer o trânsito através do Estreito de Ormuz. A Agência Internacional de Energia (AIE) já alertou para um “défice agudo de oferta” que poderá persistir pelo menos até outubro.
Essa correlação positiva anormal começou a ser observada no início de março. Como consequência, os fatores tradicionais que moviam o mercado — como diferenciais de juros e dados do PIB — perderam relevância para os traders cambiais.
A macroeconomia deu lugar à geopolítica, às notícias de alto impacto e ao apetite por risco. “Toda a narrativa do mercado agora gira em torno do gráfico do petróleo”, afirmou Brent Donnelly, presidente da Spectra Markets.
Chris Turner, diretor de estratégia cambial do ING Bank, alerta que, até que o mercado acionista passe por uma correção significativa, a dinâmica global das moedas continuará fortemente ligada aos choques no petróleo e às respostas emergenciais dos bancos centrais à inflação importada.